Calçados – Mudar para vender mais

 Por Edilson Menezes

Quantas vezes você sentiu a necessidade de mudar algo muito importante em sua vida e desistiu no último instante, dando ouvidos a uma voz que intimamente parecia lhe dizer: 

– Se eu arriscar e der errado, depois vou ficar aí sofrendo pelos cantos!
Isso é instintivo, faz parte da natureza humana como uma estratégia de sobrevivência, afinal onde o medo está incutido, a vida está preservada, pois se não corremos riscos, estamos bem. Certo? Talvez. Vejamos:
Fomos criados como compradores de crenças alheias. Ao longo de nossa infância, escutamos os adultos, referências máximas de nossa confiança, a nos dizer: – Em time que está ganhando, não se mexe, você nunca pode trocar o certo pelo duvidoso. Não deu certo porque não era para ser seu mesmo! 

As mais diversas crenças e comportamentos dos adultos ajudaram a formar o nosso sistema de crenças e evidentemente não falamos aqui em crenças religiosas e sim nas referências de limitação ou superação que nos levam a tomar as decisões em nossas vidas, sobre as quais em muitas ocasiões nos arrependeríamos lá adiante, sem ter como sabê-lo hoje. 

Em suma, passamos boa parte de nossas vidas fazendo escolhas cujo teor nos remete ao sistema de crenças, formado ao longo de nossa vida, com grande foco na infância. 

Vamos exemplificar: Carlos é vendedor em uma empresa que distribui materiais de segurança. Ele está no ramo há dez anos e tem um salário médio, considerando ganhos fixos e comissões sobre as vendas, da ordem de aproximadamente cinco salários mínimos. 

Um dia, um amigo sugere a Carlos que ele tem potencial para ganhos muito maiores e, portanto, é interessante que Carlos disponibilize seu currículo ao mercado. Ele o faz. Três meses depois, o líder de RH de um grande fabricante de materiais de segurança se depara com o perfil profissional de Carlos e pensa: eis aqui o vendedor que preenche todos os critérios de nossa empresa. Ele faz contato com Carlos, explica que ele foi selecionado por conta de seu perfil, diz que tem uma vaga disponível com possibilidades de remuneração de dez salários mínimos e o convida para uma entrevista. Carlos aceita o bate-papo e nasce aqui o flerte do mundo dos negócios, uma forma de paquera quase tão antiga quanto a tradicional que conhecemos. 

Durante a bateria de dinâmicas de grupo, atividades diversas, entrevistas com o gerente de RH e com o gerente comercial, a empresa explica para Carlos que a diferença básica entre os dois empregadores é a seguinte: 

O atual empregador de Carlos é distribuidor e a empresa que lhe propõe emprego é a fabricante do produto. Ou seja, de acordo com as intenções do novo e possível contratante, Carlos passaria a atender não exatamente o consumidor final do produto, como o faz hoje, e sim os canais distribuidores e revendedores. Carlos então pergunta: 

– Mas a empresa onde hoje eu trabalho passará a ser cliente em minha carteira de atendimento? 

O empregador lhe responde gentil e categoricamente: 

– Não! Por questões de ética, você atenderá outros revendedores e distribuidores, que atuam em áreas completamente diferentes da empresa onde hoje você está atuando. 

Olhando fixamente nos olhos de Carlos, o gerente de RH finaliza da seguinte forma: 

– Estamos encerrando hoje o processo seletivo, Carlos. São mais de vinte candidatos para uma única vaga e você é o candidato pelo qual nós temos maior interesse. Peço que vá para casa, converse com a sua esposa e amanhã na primeira hora entraremos em contato contigo. Se for interessante começar um projeto conosco, você se desligará do atual emprego e começará suas atividades na próxima semana. Pense com carinho em seu futuro, amanhã voltaremos a conversar. 

Carlos deixa a sala de seu entrevistador confuso. Os ganhos representam o dobro em relação ao que atinge hoje, atuando na empresa onde é vendedor há dez anos. 

Neste momento, senhoras e senhores, um verdadeiro filme passa pela cabeça do profissional e um dilema se estabelece. Neste filme, parte da infância surge em pequenos flashs. 

Uma parte lógica de Carlos (zona de conforto) quer continuar a fazer o que está fazendo, pois entende que a remuneração atual, embora muito menor, é segura. Além disso, é lá que estão os amigos, as pessoas que fazem parte de sua vida, de sua realidade. É para ir a esta empresa que Carlos acorda diariamente, é por ela que Carlos dá o melhor de si. Além disso, ele pensa ainda em uma “verdade dramática”: tudo aquilo que conquistou nos últimos dez anos, ele “deve” a esta empresa e a sua partida para outro trabalho será talvez uma espécie de traição. 

Movido ainda por seu raciocínio lógico, que funciona como um arquivo da zona de conforto, Carlos vai resgatar momentos da infância, de quando seus pais ou os adultos mais próximos lhe diziam gritando “NÃO FAÇA ISSO”, sendo que Carlos não escutava, na época, e acabava lhe rendendo uma boa surra, um castigo, um constrangimento ou simplesmente um resultado indesejado.
Já as emoções de Carlos lhe apresentarão possibilidades que embora naquele momento ainda sejam utópicas, pois ainda não existem, são muito aprazíveis de se pensar. Carlos se verá imaginando um futuro mais próspero, onde atua com mais liberdade, poder e felicidade, financeira e emocionalmente. 

As suas emoções também lhe convidarão a imaginar como seria a vida tendo mais dinheiro para investir na família, no lazer e em si mesmo. Aquela faculdade que ele quer para o filho, aquela casa maior, aquela viagem que nunca conseguiu fazer. 

Charles Darwin teve receio de ser severamente punido ao apresentar a teoria da Seleção Natural e optou por compartilhar informações somente com amigos próximos, até que pudesse reunir provas capazes de sobrepujar os argumentos da comunidade científica da época, que era em grande parte contrária as suas teorias. Por outro lado, jamais desistiu, embora pudesse ter optado pela zona de conforto. 

Senhor Abravanel, o nosso conhecido Sílvio Santos, ainda muito jovem aprendeu com um domador de circo que o público é como uma fera: se você tiver medo dele, será devorado. Sílvio encarou as suas feras, conquistou milhões de admiradores e construiu um verdadeiro império na área de comunicação, cosméticos e entretenimento. 

Ora, Darwin e Sílvio têm no mínimo este ponto em comum. Em dado momento, eles abandonaram as suas zonas de conforto e encararam o público, os familiares, os amigos e quaisquer pessoas que surgissem pelo caminho. O motivo era muito simples: no momento da decisão, a DETERMINAÇÃO para realizar era muito superior ao MEDO de mudar. 

E quanto ao nosso amigo Carlos, cujo exemplo foi aqui citado? Qual seria a decisão certa? 

Aquela que ele quiser. O objetivo deste artigo não é promover os leitores ao status de “juízes” na vida de ninguém. A ideia é convidá-los a refletir, para que entendam que cada um de nós, sem exceção, já passou pela mesma situação de Carlos. Duas perguntas ficarão aguardando a sua resposta: No passado remoto ou recente, quando você passou por uma situação semelhante, o que você fez? E amanhã ou depois, o que fará?